Categorias Ligadas ao Substantivo: Adjunto e Complemento Nominal

 

 

Categorias Ligadas ao Substantivo: Adjunto e Complemento Nominal

 

     Na Língua Portuguesa o ARTIGO, o PRONOME, o NUMERAL, o ADJETIVO e a LOCUÇÃO ADJETIVA são palavras que servem para colorir o substantivo, dando-lhe vida diferenciada a cada texto em que eles aparecem. Por exemplo, a interpretação que damos a “homem culto” e “homem iletrado” nos indica, via de regra, que estamos falando, embora sejam estes homens de carne e osso, de naturezas muito diversas, antagônicas em relação a uma série de rotinas sociais, porque o homem culto certamente terá participação na sociedade muito diferente da de um homem iletrado, mormente no que se refere a postos de trabalho, em que a desvantagem de um sobre o outro é patente.

     Estas categorias gramaticais, na cadeia sintagmática, têm posição inicialmente determinada, qual seja, artigo, pronome e numeral ficam antes do substantivo1 e o adjetivo fica depois do substantivo.

     É escusado dizer que, embora seja esse o padrão ou a ordem em que estes lexemas aparecem, há casos em que a ordem determina o valor semântico do substantivo, daí se configurando uma exceção a uma regra geral. Exemplos: velho amigo, amigo velho; certas palavras, palavras certas; bastante comida, comida bastante; alguma pessoa, pessoa alguma, etc.

     Feita essa ressalva, podemos seguramente reconhecer que estas classes-satélite, quando ligadas diretamente ao substantivo, sem pausa marcada por sinais de pontuação ou distante dele na sentença estudada, desempenham o papel fixo de ADJUNTO ADNOMINAL. Exemplos:

  1. Artigo: a mulher; os livros; as revistas.

  2. Pronome: nosso lar; estes óculos; nenhum carro.

  3. Numeral: segundo lugar; quatro paredes, mil e uma noites.

  4. Adjetivo: homens virtuosos; palavras melífluas; olhares lassos.

  5. Adjetivo perifrástico ou locução adjetiva: casa de pedra; homem de palavra; telefone de plástico. Em todos os exemplos, observamos que há a seguinte estrutura: substantivo concreto (casa, homem, telefone) + preposição + nome. Dessa observação podemos concluir que todo segmento preposicionado ligado a substantivo concreto é ADJUNTO ADNOMINAL.

 

O Complemento Nominal

Há dois casos em que o termo preposicionado será, indubitavelmente, complemento nominal. Eles podem ser sistematizados da seguinte forma:

  1. ADJETIVO TRANSITIVOi + PREPOSIÇÃO + NOMINALii

     Exercitar a inteligência é importante à saúde espiritual.

     Comentário: no caso, o sintagma preposicionado à saúde espiritual integra o sentido do adjetivo transitivo importante, que, via de regra, nos diz que o que é importante é sempre importante a ou para alguma coisa ou alguém. Pela mesma razão, podemos lançar vários outros exemplos com a mesma estrutura morfológica: a leitura é importante ao homem; a oposição americana tem-se manifestado contrária a qualquer ajuda para solução da crise européia; os arquivos dependentes de revisão deverão demonstrar se são necessários ao setor competente. Conforme facilmente se depreende, observa-se que todos os termos negritados e sublinhados são complementos nominal, porque complementam os adjetivos, respectivamente, importante, contrária, dependentes e necessários.

i Há certos adjetivos e advérbios que, à semelhança dos verbos transitivos, exigem sua complementação por meio de algum termo preposicionado. Este termo preposicionado se chama complemento nominal em gramática, porque integra o sentido de nomes, pois, em sentido amplo, o que não é verbo, é nome.

ii Na Linguística dá-se o nome de sintagma nominal o termo sintático que tem como núcleo um substantivo ou palavra substantiva.

B) ADVÉRBIO TRANSITIVO + PREPOSIÇÃO + SINTAGMA NOMINAL. O sintagma preposicionado que integra o sentido de advérbios transitivos sempre será complemento nominal.

Referentemente ao acordo estabelecido pelas bases aliadas, poder-se-ia pensar que ele não contempla os mais fracos.

Não iremos ignorar você, independentemente de sua ação.

 

Substantivo Abstrato + Preposição + Sintagma Nominal

 

     Chegamos ao que, de fato, se tornou um problema para os estudos da gramática e, em especial, para quem deles se serve. Por isso, tentando minimizar o impacto que essa barafunda tem provocado, é importantíssimo que falemos antes dos verbos, para logo depois entendermos com mais acuidade o que de fato se configura como adjunto adnominal e o que se configura como complemento nominal.

Verbos de ação e Verbos de Processo

 

     Muitos substantivos abstratos são provenientes de verbo, como, por exemplo, exaltação: exaltar; dança: dançar; realização: realizar. Quando a contagem de fonemas (e não letra) desse tipo de substantivo é inferior à quantidade de fonemas do verbo, chamamos esse tipo de formação de palavras de derivação regressiva ou deverbal (dançar: dança; cantar: canto; atacar: ataque). No entanto, se a quantidade de fonemas é maior do que os presentes no verbo, daremos o nome de derivação sufixal (realizar: realização; supor: suposição; movimentar: movimentação, etc.

     No geral, esses substantivos requerem sejam complementados por meio de uma estrutura básica: preposição + substantivo ou palavra com essa natureza (pronome substantivo, palavras que passaram pelo processo de derivação imprópria ou por conversão, numeral substantivo). Em necessidade de saúde, realização dos exercícios; crítica ao Congresso Nacional, etc., os substantivos necessidade, realização e crítica exigem sua complementação, o que, de acordo com os manuais de gramática, pode configurar tanto adjunto adnominal assim como complemento nominal, razão de tantos embaraços em seu reconhecimento.

     Antes de explicarmos como isso se dá, é importante dizer que podemos chegar a uma conclusão lógica:

     Os substantivos abstratos indicadores de processo, portanto provenientes de verbos de processo, geram em sua transitividade preposicionada apenas COMPLEMENTOS NOMINAIS.

 

Verbo de Processo e seu substantivo correlato

 

     Nos verbos de processo, o nome, que desempenha o papel sintático de sujeito, é paciente do verbo, é afetado pela realização do verbo, e não seu agente:

     As zínias do jardim embaixo BROTAVAM com dificuldade dos borrões de fumaça.

     A miraculosa planta somente FLORESCE na solidão do inferno.

     O alferes não MORREU, nem mesmo ADOECEU.

[Obs.: toda a teoria e todos os exemplos foram retirados de Maria Helena de Moura Neves, Gramática de Usos do Português, Editora Unesp, p. 26.]

     Por isso, em BROTAMENTO DAS ZÍNIAS, FLORESCIMENTO DA MIRACULOSA PLANTA, A MORTE E ADOECIMENTO DO ALFERES os termos sublinhados e negritados são complementos nominais, justamente porque são provenientes de verbos de processo (brotar, florescer, morrer e adoecer).

     Se se usar o critério que todas as gramáticas oferecem na distinção de adjunto e complemento, certamente a resposta será errada, porque, não havendo um agente para o conteúdo semântico do verbo, inviável também a presença de adjunto nominal, que é termo agente na relação que com o verbo estabelece.

RESUMINDO:

NOS SUBSTANTIVOS ABSTRATOS PROVENIENTES DE VERBO DE PROCESSO O SINTAGMA PREPOSICIONADO SERÁ COMPLEMENTO NOMINAL, MESMO QUE TENHA O PAPEL SINTÁTICO VERBAL DE SUJEITO.

Exemplo:

     O temor de Pedro à sua demissão vinha crescendo dia após dia.

     O substantivo abstrato temor é proveniente do verbo temer, que é tratado como verbo de processo, porque o seu sujeito é paciente, e não o agente da relação verbal: Pedro teme sua missão. Por isso, tanto o sintagma preposicionado de Pedro assim como o à sua demissão são complementos nominais.

Agora veremos o segmento SUBSTANTIVO ABSTRATO PROVENIENTE DE VERBO DE AÇÃO + PREPOSIÇÃO + NOME.

     Somente aqui se faz necessária a operação de reescritura que traz os manuais de gramática, qual seja, a de transpor o substantivo abstrato proveniente de verbo de ação para o seu respectivo verbo e verificar se na base verbal o termo estudado se comporta como sujeito ou como complemento do verbo. Se o comportamento sintático for de SUJEITO, diz-se que na base nominal o termo estudado é ADJUNTO ADNOMINAL. Se o comportamento for OBJETO DIRETO, OBJETO INDIRETO ou ADJUNTO ADVERBIAL, diz-se que na base nominal o termo estudado é COMPLEMENTO NOMINAL.

VERBO DE AÇÃO

                         Ações ou atividades (= o que alguém faz ou o que algo provoca)

     Os verbos exprimem uma ação ou atividade. Esses verbos são acompanhados por um participante agente ou causativo, podendo haver, ou não, outro participante (afetado ou não), isto é, podendo haver, ou não, um processo envolvido:

O sambista BATUCAVA uma caixa de fósforo marcando o ritmo; um engraxate batucava na caixa.

O homem CUMPRIMENTOU o dono do bar, sorriu, bebeu lá o seu copo. SAPATEOU, CANTOU, ABRIU os braços e DEU um longo agudo que quase QUEBROU as taças de cristal.

Maria Helena de Moura Neves, Gramática de usos do português, Editora Unesp, p. 26

ESTUDO DIRIGIDO

     Diplomatas da União Europeia concordaram nesta segunda-feira em impor um embargo às importações de petróleo do Irã, mas decidiram adiar para 1º de julho a implementação plena das medidas, disse um embaixador europeu. (Reuters, Bruxelas, 23/1/12)

     No período acima temos vários sintagmas preposicionados, todos com um papel sintático específico. Vejamos um a um.

  1. Diplomatas da União Europeia: o sintagma preposicionado traz o valor semântico de pertencimento, posse, daí ser, em relação a Diplomatas, ADJUNTO ADNOMINAL.

  1. um embargo às importações de petróleo do Irã: o sintagma preposicionado exerce a função de COMPLEMENTO NOMINAL, pois, transpondo-se para uma base verbal, tem-se alguém embargar as importações de petróleo do Irã, em que as importações de petróleo do Irã é OBJETO DIRETO de embargar, que é verbo de ação.

  1. importações de petróleo do Irã: importações é proveniente do verbo de ação importar. Transpondo-se o segmento preposicionado para sua base verbal, tem-se: Irã importa petróleo. Em sua configuração verbal Irã é sujeito e petróleo, objeto direto. Portanto, na base nominal Irá é adjunto adnominal e petróleo, complemento nominal.

Obs.: o sintagma preposicionado do Irã é sintaticamente ambíguo, pois pode vincular-se tanto a importações quanto a petróleo. No entanto, independentemente da análise realizada, será adjunto adnominal.

  1. a implementação plena das medidas: implementação vem de implementar, verbo de ação. Na base verbal, tem-se implementar as medidas, que é objeto direto. Portanto, na base nominal será COMPLEMENTO NOMINAL.

 

Prof. Edson Couto

PUBLICAÇÃO 03/08/2017, 14h30 – Escola Da Língua Portuguesa On-Line